história

E

m 1776, um local denominado "O Resgate" deu origem ao que anos mais tarde seria a Fazenda do Resgate. Este local pertencia à fazenda Três Barras, cabeça de sesmaria do padre Antônio Fernandes da Cruz.

O Resgate tornou-se uma fazenda em 1828, como dote de casamento de Alda Romana de Oliveira com o coronel Inácio Gabriel Monteiro de Barros. Nesta época, a propriedade produzia toucinho, milho, feijão, farinha e café (porém em pouca quantidade) e, além disso, possuía 77 escravos.

Em 1833, a fazenda Resgate foi comprada pelo senhor José de Aguiar Toledo, um comerciante português que chegou ao Brasil em meados do século XVIII. Toledo chegou a Bananal no início do século XIX, trazendo consigo, de Minas Gerais, a solução arquitetônica implantada na fazenda e o pioneirismo no plantio do
café em larga escala na região.

Em 1838, por ocasião do falecimento de José de Aguiar Toledo, a fazenda Resgate e suas demais propriedades foram deixadas como herança para seus oito filhos. Em pouco tempo, Manoel de Aguiar Vallim, um dos oito irmãos, comprou todas as partes da fazenda Resgate e estabeleceu moradia na propriedade. Em 1844, Manoel de Aguiar Vallim casou-se com Domiciana de Almeida, filha do comendador Luciano José de Almeida, dono da fazenda Boa Vista e titular de uma das maiores fortunas do Brasil na época.

Em alguns anos Manoel de Aguiar aumentou substancialmente sua fortuna e em meados do século XIX, em torno de 1850, resolveu fazer uma reforma na casa de vivenda do Resgate.

Agora, a casa que havia sido construída em meados do século XVIII, baseada no estilo senhorial português (com apenas um pavimento) e adaptada à solução mineira de produção de café da primeira metade do século XIX (já com dois pavimentos, porém sem nenhum requinte), ganha uma fachada neoclássica com uma escada central em cantaria. Os materiais de construção empregados na reforma também diferem daqueles utilizados em sua construção original: o primeiro pavimento é feito em pedra e pau-a-pique e o segundo com tijolos de adobe. Contudo, apesar da fachada em estilo neoclássico, os fundos da casa estão pousados ao "rés do chão", em uma planta em formato de "U" com três mansardas: duas laterais e uma voltada para o pátio interno, característico do estilo mineiro. A reforma também abarca o pátio interno, que recebe nova feição. A sala de jantar é colocada junto a ele para fins de arejamento e iluminação, como se fazia nas residências burguesas na França, idealizando uma nova disposição do espaço. Esta é uma mudança fundamental nos parâmetros de moradia do Brasil oitocentista. Desta forma, o Resgate transforma-se em um monumento/documento completamente preservado da história do Brasil.

Adentrando a segunda metade do século XIX foi contratado o pintor espanhol José Maria Villaronga que começa a pintar o segundo pavimento do casarão do Resgate. No hall de entrada encontram-se retratados os produtos agrícolas da fazenda: em posição principal o café, cir­cundando-o, a cana, o milho, o feijão e a mandioca. Na sala de visitas, em estilo rococó, pássaros brasileiros e detalhes em madeira coberta com folhas de ouro. Na sala de jantar, três afrescos: em posição central, a riqueza do proprietário; ladeando esta pintura, mais dois afrescos com motivos chineses, seguindo a tendência em voga na Europa, em que a chinoiserie aparecia nas artes e arquitetura desde meados do século XVIII. A capela também se destaca por suas pinturas e detalhes em madeira com folhas de ouro. No mezanino, afrescos com várias representações de Nossa Senhora. No primeiro pavimento, além do altar em estilo barroco e das diversas pinturas, um grande afresco retratando o batismo de Jesus é peça central deste espaço.

Em meados de 1850, no auge da produção cafeeira da província de São Paulo, o Resgate já contava com 351 escravos. Alguns destinados ao serviço direto do senhor, como os caseiros, as treze cozinheiras, pajens, costureiros, alfaiate, amas, mucamas, copeiro, sapateiro, barbeiro, lavadeiras, rendeira, seleiro e hortelão. Agora, o primeiro pavimento da casa de vivenda abrigava a senzala das mucamas e, à frente da casa, erguia-se um enorme complexo de senzalas para os demais cativos.

Em 1878, falece o comendador Manoel de Aguiar Vallim, uma das maiores fortunas do Brasil Imperial e maior produtor de café da província de São Paulo. Em seu inventário constam as fazendas do Resgate, Três Barras, Independência, Bocaina, além de diversos outros sítios e situações. Tinha 351 escravos, além de um palacete de "dezesseis janelas", casas e o teatro Santa Cecília com seus acessórios, na cidade de Bananal. Vallim era titular de uma fortuna correspondente a 1% de todo papel moeda circulante no Brasil, composta por inúmeros títulos da dívida pública (inclusive dos Estados Unidos), bens em ouro, prata e diamantes.

Contudo, o legado mais importante deixado pelo comendador Manoel de Aguiar Vallim é a sede da Fazenda Resgate, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e considerada uma das cem mais belas e importantes edificações da história do Brasil.